
Esse tema desafiador está cada dia mais presente em nossa vida. Ele nos permite discutir amor, falta, desejo, autoestima, dependência e reconhecimento sem reduzir o sofrimento amoroso a simplesmente “carência”.
Mas por que nos transformar em pessoas egoístas, prepotentes, donas da verdade e do outro? Como podemos nos preparar para um relacionamento, tendo a percepção de que o outro é uma pessoa como você, com desejos, vontades e necessidades próprias
POR QUE MENDIGAMOS CARINHO E ATENÇÃO DE QUEM AMAMOS?
Na vida amorosa, algumas pessoas passam a sentir que precisam pedir constantemente por carinho, atenção, mensagens, demonstrações de afeto ou confirmação de que ainda são amadas. Quando o outro se distancia, surge a angústia: “Será que ele ainda gosta de mim?”, “Por que não me procura?”, “O que eu fiz de errado?”.
Na perspectiva psicanalítica, essa experiência pode ser pensada a partir da falta e do desejo. O ser humano não é completo nem autossuficiente; existe uma dimensão de falta que participa da constituição do sujeito. O problema aparece quando o amor do outro passa a ser colocado como condição para que a própria pessoa consiga sentir que tem valor.
Nesse momento, o pedido de carinho pode deixar de ser apenas uma manifestação legítima de afeto e transformar-se em uma busca incessante por reconhecimento
QUANDO AMAR SE TRANSFORMA EM PEDIR PROVAS
- “Você ainda me ama?”
- “Por que não demonstra?”
- “Por que não manda mensagem?”
- “Você sente minha falta?”
Essas perguntas podem aparecer ocasionalmente em todo e qualquer relacionamento. Entretanto, quando se tornam uma necessidade constante, talvez exista algo além da relação atual sendo colocado em jogo.
A pessoa pode estar tentando obter do parceiro uma resposta capaz de preencher uma insegurança que, na verdade, não nasceu exclusivamente naquela relação.
É como se o sujeito dissesse, inconscientemente:
- “Diga que eu sou importante para que eu consiga acreditar que tenho valor.”
O outro passa, então, a ocupar uma posição de alguém que precisa confirmar continuamente a existência e o valor do sujeito
O DESEJO DE SER ESCOLHIDO
Na psicanálise, o desejo possui uma relação importante com o desejo do outro. Não queremos apenas receber amor; muitas vezes queremos ser desejados, escolhidos e reconhecidos pelo outro.
Por isso, a ausência de uma mensagem pode adquirir um significado enorme. Não é apenas uma mensagem que não chegou. Pode representar, para aquele sujeito:
- “Ele não pensou em mim.”
- “Eu não sou importante.”
- “Ele pode encontrar alguém melhor.”
- Vou ser abandonado.”
POR QUE ALGUMAS PESSOAS ACEITAM TÃO POUCO?
Uma questão importante é compreender por que alguém pode permanecer em uma relação na qual precisa implorar constantemente por atenção.
Às vezes, não se trata simplesmente de “não ter amor-próprio”. Existem histórias subjetivas, experiências anteriores, formas de vinculação e conflitos inconscientes que participam da maneira como cada pessoa estabelece seus relacionamentos. Pode existir também uma repetição: o sujeito reencontra, em diferentes relações, uma posição conhecida.
Ele sofre, reclama, promete que vai embora, mas permanece. A pergunta psicanalítica não seria apenas:
“Por que você aceita tão pouco?”
Mas também:
“O que existe nesse lugar que faz você permanecer?
AMOR NÃO DEVERIA EXIGIR A PERDA DE SI MESMO
Amar alguém não significa deixar de existir como sujeito. Uma relação saudável não elimina a falta, a distância ou as diferenças. Também não significa receber atenção o tempo inteiro. O ponto fundamental é perceber quando o desejo de ser amado começa a se transformar em uma necessidade de provar constantemente que se é digno de amor.
Talvez seja justamente aí que seja necessário olhar para si. Não para perguntar apenas:
“Por que ele não me dá carinho?”
Mas também:
“Por que preciso tanto que ele me dê carinho para me sentir amado?” Essa mudança de pergunta pode abrir espaço para uma reflexão muito mais profunda
PARA CONCLUIR
Compreender o ciúme significa, portanto, olhar para além do comportamento do outro e questionar o que esse sentimento desperta em nós. Muitas vezes, o sofrimento provocado pelo ciúme está relacionado não apenas ao medo de perder o parceiro, mas também ao temor de não ser suficientemente amado, desejado ou valorizado.
O trabalho psicanalítico não consiste em ensinar alguém a “não precisar de ninguém”. Ao contrário, somos seres constituídos nas relações. A questão é construir uma relação na qual amar o outro não signifique abandonar a si mesmo.
Porque existe uma diferença importante entre pedir amor e implorar para ser reconhecido como alguém digno de amor.
E talvez a pergunta mais importante seja:
“Estou buscando o amor do outro ou tentando, através do outro, descobrir o meu próprio valor?”
“ O medo de perder o outro revela o medo de perder a si mesmo”
Pense nisso.
