O feminicídio é uma das expressões mais extremas da violência contra a mulher. Mais do que um ato de violência física, ele revela uma ruptura radical com a possibilidade de reconhecer a mulher como um sujeito autônomo, com desejos, escolhas e direito à própria existência.
A psicanálise pode contribuir para pensar o que acontece na subjetividade quando o amor, o desejo e o vínculo com o outro são atravessados pela posse, pelo ciúme, pelo controle e pelo ódio
Quando amar significa possuir
Em uma relação saudável, o outro é reconhecido como alguém separado de nós. Ele pode desejar, escolher, discordar e até decidir ir embora.
Mas, em determinadas relações marcadas pela violência, essa separação torna-se intolerável. O parceiro pode passar a acreditar que a mulher lhe pertence:
“Se ela não estiver comigo, não estará com ninguém.”
Nessa lógica, a autonomia da mulher é percebida como ameaça. O relacionamento deixa de ser um encontro entre dois sujeitos e passa a funcionar como uma relação de dominação e controle
O ciúme pode esconder uma ferida narcísica
Para a psicanálise, o ciúme não é simplesmente uma prova de amor. Ele pode envolver insegurança, medo da perda, rivalidade e questões narcísicas.
Quando o sujeito depende excessivamente do outro para sustentar sua própria imagem e autoestima, uma separação pode ser vivida não apenas como perda do relacionamento, mas como uma espécie de ferida em sua própria identidade.
Por isso, algumas situações de rejeição ou abandono podem despertar sentimentos extremamente intensos.
Isso, entretanto, não significa que o ciúme cause feminicídio ou que todo indivíduo ciumento seja potencialmente agressor. A violência resulta de uma complexa combinação de fatores subjetivos, relacionais, sociais e culturais.
A dificuldade de aceitar o fim
Uma separação significa, em alguma medida, lidar com uma perda.
Na perspectiva psicanalítica, elaborar uma perda implica reconhecer que o outro não pode ser controlado e que seu desejo é independente do nosso.
Quando essa elaboração não acontece, pode surgir uma tentativa desesperada de impedir a separação.
É nesse ponto que podemos compreender uma das frases mais perigosas presentes em relações abusivas:
“Se não for minha, não será de mais ninguém.”
A frase revela uma transformação do outro em propriedade. A vida da mulher passa a ser subordinada ao desejo do agressor.
Do amor ao ódio
Freud mostrou que amor e ódio não são necessariamente sentimentos completamente opostos. Eles podem coexistir e se transformar ao longo das relações.
Em determinadas circunstâncias, aquilo que era investimento amoroso pode ser atravessado por ressentimento, frustração e hostilidade.
Entretanto, é fundamental não cair em uma interpretação simplista: não é o amor que produz a violência.
O feminicídio não é “amor demais”. É uma forma extrema de violência, frequentemente relacionada à tentativa de exercer poder e controle sobre a mulher.
O outro não é propriedade
Talvez uma das contribuições mais importantes da psicanálise para pensar o feminicídio seja justamente lembrar que o outro é outro.
- A mulher não existe para preencher a falta de alguém.
- Ela não pertence ao parceiro.
- Ela não deve permanecer em uma relação porque alguém não suporta sua partida.
- Ela possui desejo próprio, liberdade e direito à própria existência.
Quando o desejo do outro é reconhecido, a separação pode ser dolorosa, mas pode ser elaborada. Quando o outro é transformado em objeto de posse, a violência pode aparecer como tentativa de eliminar aquilo que não pode ser controlado.
Feminicídio também é uma questão social
Uma leitura psicanalítica não deve individualizar completamente o problema.
O feminicídio acontece dentro de uma sociedade na qual ainda existem machismo, desigualdade de gênero, violência doméstica e naturalização do controle sobre o corpo e a vida das mulheres.
Para refletir
“Por que alguém mata uma mulher que diz amar?”
Mas também:
“O que acontece quando o desejo de amar deixa de reconhecer o desejo do outro?”
Porque amar não é possuir.
Amar pressupõe reconhecer que o outro pode permanecer, pode partir, pode escolher e pode desejar diferente de nós.
Quando a liberdade do outro se torna insuportável, já não estamos diante de amor, mas de uma tentativa de controle.
E quando esse controle chega ao extremo da violência letal, estamos diante do feminicídio.
Quem ama, não agride, não controla, não manipula, não sufoca. Amar é respeitar, dialogar, acolher e aceitar as diferenças e individualidade do outro.“ Nenhum relacionamento vale a perda da sua liberdade, da sua dignidade ou da sua vida.